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Carmen Miranda e sua participação no teatro "Vai Dar O Que Falar"

17 de set.
3 min de leitura

Conheça a explosiva passagem de Carmen Miranda pelo teatro de revista "Vai Dar O Que Falar", espetáculo que afrontou a moral conservadora do Rio de Janeiro pouco antes da Revolução de 1930.


Fotografia publicitária de Carmen Miranda gravando para a 20th Century Fox (1943) | Domínio público
Fotografia publicitária de Carmen Miranda gravando para a 20th Century Fox (1943) | Domínio público

Descoberta por Josué de Barros, Carmen Miranda vendeu 35 mil discos após o lançamento de "Taí" (Pra Você Gostar De Mim), o primeiro grande sucesso da cantora, escrito por Joubert de Carvalho e um grande feito para o mercado fonográfico de 1930.


Entre as décadas de 20 e 30, era comum artistas iniciarem no teatro de revista para ganharem notoriedade e, a partir daí, tentarem a carreira no rádio e gravação de discos. Carmen teve uma trajetória inversa e atípica ao período.


Diferentemente de outros, Carmen não precisou do teatro para "acontecer". Era a grande novidade e uma artista em plena ascensão. Apesar disso, em setembro de 1930, estreou no teatro de revista "Vai Dar O Que Falar" no Teatro João Caetano, escrito por Luiz Peixoto, Marques Porto e com músicas de Ary Barroso.


A peça foi considerada um escândalo e uma afronta à família brasileira da época, permanecendo em cartaz por apenas uma semana por abordar temas como a prostituição na região da Zona do Mangue (às margens da atual Av. Presidente Vargas, no Rio de Janeiro).

"Os jornais de oposição ao prefeito estavam revoltados pela cessão do Teatro João Caetano, controlado pela prefeitura, a um tipo de espetáculo que para eles só cabia em palcos fuleiros, como o do Teatro Recreio. [...] O quadro do Mangue fora só o pretexto para o tumulto."

(Carmen: Uma Biografia (Ruy Castro), capítulo 4, pág. 76-77)


Polêmica e sátiras políticas


A peça trazia sátiras políticas direcionadas à administração do então prefeito Antônio Prado Júnior, nomeado pelo presidente Washington Luís (às vésperas da Revolução de 1930). O espetáculo ironizava a fiscalização, as tentativas de reorganização urbana e a higienização da cidade que buscavam reprimir e moralizar as áreas populares e de prostituição do Mangue.


Reação do público


A plateia, dividida entre defensores da classe artística, partidários do prefeito Antônio Prado Júnior e conservadores e moralistas, que buscavam boicotar o espetáculo, levou a uma confusão generalizada. Tiros descritos como "direcionados ao alto" instauraram o caos no Teatro João Caetano. A polícia interveio para conter a pancadaria e acabar com o tumulto.


Para evitar que o teatro fosse totalmente depredado e para retomar o controle da situação, a produção precisava de um trunfo para acalmar a multidão.


"Carmen recompôs-se. Entrou, cantou "Taí", relampejou o brilho dos dentes, despejou chispas com os olhos e saiu sob aplausos. Depois disso, a revista pôde chegar ao final."

(Carmen: Uma Biografia (Ruy Castro), capítulo 4, pág. 78)


"No dia seguinte, os jornais arrasaram todo mundo - os autores, o espetáculo e a platéia -, e pouparam Carmen, em quem viram um talento para o teatro musicado. Mas Carmen não precisava daquilo. Pediu dispensa a Luiz Peixoto. Não voltou mais e Vai dar o que falar, mesmo com o expurgo do quadro, só se agüentou por uma semana em cartaz."

(Carmen: Uma Biografia (Ruy Castro), capítulo 4, pág. 78)


Apesar da controvérsia, a passagem de Carmen pelo espetáculo consolidou ainda mais sua visibilidade e ascensão pública. Nos anos seguintes, ela consagrou seu nome no rádio e no cinema, caminho que a levaria à carreira internacional.



Indicação de leitura


Carmen: Uma biografia (Ruy Castro)

Ruy Castro acompanha do nascimento da menina Maria do Carmo, numa aldeia em Portugal (e a vinda ao Rio de Janeiro, em 1909, com dez meses de idade), à consagração brasileira e internacional de Carmen Miranda e sua morte em Beverly Hills, aos 46 anos, vítima da carreira meteórica e dos muitos soníferos e estimulantes que massacraram seu organismo em pouco tempo.


Arte e Sociedade no Brasil - Vol. 1: De 1930 a 1956: Volume 1 (Araci Amaral e André Toral)

Esta coleção procura mostrar a relação entre a arte e o contexto social no qual os artistas produziram suas obras. O primeiro volume pretende destacar a força da imigração estrangeira, da urbanização, da economia do café e do Estado Novo na Arte brasileira.


Carmen: a grande Pequena Notável (Heloisa Seixas e Julia Romeu) - versão ilustrada

Ao recontar a trajetória de Carmen, as autoras traçam também um panorama vivo do Rio de Janeiro do início do século 20. E convidam leitores de todas as idades a conhecer um pouco mais sobre a artista que ajudou a destacar no exterior as cores e a musicalidade brasileiras.

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